(Foto de Léa T. Vai que alguém alguém acha que é minha...rs)
Esse foi um post muito pensado. Levei meses pensando se o escreveria ou não, porque a confissão envolve um tema mega polêmico, daqueles que fazem as pessoas repensarem tudo até então. Quando comecei a amadurecer essa idéia de abrir essa questão no blog, teve um momento em que pensei em simplesmente fechar o blog e criar outro onde já começasse a partir dessa revelação. Mas daí fiquei pensando em todas as pessoas que conheci nesses quase 6 anos de Confissões Ácidas e achei que valeria a pena correr o risco de lidar como o preconceito, já que minha vida toda foi feita de recomeços.
Sou uma transexual operada. Ou seja, nasci num corpo masculino, vivi uma vida masculina até a idade adulta. Passei por um estágio em que fui um gay daqueles bem afetados, já que nunca consegui me portar como um homem, muito menos pensar como um. Confesso que tentei ser homem com todas as forças que alguém pode tentar, namorei mulheres, tentei transar com mulheres, tentei me conformar com o meu corpo masculino e ser um gay, mas tudo foi absolutamente inútil. Minha mente feminina sempre clamava por uma mudança, por uma libertação daquele corpo que nada tinha a ver com meu jeito de ser e existir.
Para muitos, inicialmente, quando se fala a palavra transexual, já vem à mente a imagem da travesti de prostituição, caricata, com aquela aparência ambígua e trejeitos exagerados. Nada contra travestis, nada mesmo, apenas transexuais não são travestis operados. Travesti é uma pessoa com uma identidade social feminina. Transexuais são pessoas com identidade de gênero oposta ao sexo que nasceu. É uma pessoa que tem a convicção íntima, imutável de não pertencer ao sexo de seu nascimento.
Quando era criança com meus 5, 6 anos de idade, já me sentia uma menina. Achava que quando chegasse na adolescência a natureza descobriria o erro que cometeu e eu desenvolveria corpo de mulher. Todas as brincadeiras que gostava quando criança eram de menina. E apesar de sempre ser obrigada a brincar com os meninos, dentro da minha mente de criança, vivia a fantasia de ser uma menina.
Na puberdade meu castelo desmoronou, meu corpo foi se transformando de acordo com o sexo que nasci e para mim aquilo foi a pior coisa que poderia ter me acontecido. Tive uma adolescência horrível, isolada, com raiva do meu corpo. Com uma família que não me apoiava e só piorava minha sensação de mal estar no mundo. Ali começaram as minhas tentativas de suicídio.
Na idade adulta, um pouco mais adaptada, mas não menos inconformada, entrei num processo autodestrutivo que envolvia drogas, álcool e sexo promíscuo. A vontade que tinha era de destruir aquele corpo que não me pertencia, a qualquer preço, e me empenhei nisso. Só que por força do universo, Deus, destino, ou como queiram chamar, não morri. Mas, sim, passei por um momento de transformação que tinha que decidir me matar de vez ou tentar buscar soluções para aquela questão.
Nessa etapa da minha vida comecei a reconstruir tudo, emprego, amizades, relacionamentos e fazer a mudança do meu corpo, não poderia viver naquele corpo masculino e assim o fiz. Foram anos de hormonização até chegar a cirurgia, logo depois a alteração do nome no registro de nascimento.
Hoje em dia vivo uma vida feminina em todos os sentidos. Mesmo que o fantasma da transexualidade continue assombrando a minha relação com a família, que foi totalmente detonada por essa questão. E meus relacionamentos amorosos, que simplesmente não vigam porque são poucos os homens que querem ter um relacionamento sério com uma transexual. Essa questão com os homens já foi mais complicada na minha mente, não deixou de ser, mas hoje em dia não corro mais atrás de homens que não se sentem à vontade de ter um relacionamento comigo. Se eles não me enxergam como mulher, simplesmente não é um homem que valha a pena eu perder meu tempo gostando ou correndo atrás. Hoje em dia sinto uma facilidade maior de deletar esses caras, que são a maioria e que dói sempre que tenho que deletar, mas que cada vez consigo fazer mais rapidamente.
Talvez agora muitos entendam o motivo de eu fazer tantos posts dizendo que sou diferente, os posts sobre homossexualidade, os posts em que falo do relacionamento ruim com a família, os bulliyngs que sofri na escola, os posts que falo de como gostaria de ser uma igual. Acho que sempre quis dizer que gostaria de ter nascido mulher, porque ser transexual não é legal, definitivamente não é. Não é a mesma coisa de ser homossexual, homossexualidade é orientação sexual. Transexualidade envolve questão de gênero de como existir, de como conviver com seu corpo, de como ser humano na sociedade em todos os setores. Inverter o sexo de um corpo é algo que te faz pagar um preço alto. Não quero dizer que uma questão seja mais difícil que a outra, elas se assemelham em alguns pontos e diferem bastante em outros.
A partir dessa revelação, obviamente todas as minhas postagens daqui para adiante sofrerão mudanças e essa era mesmo a intenção. Sempre esbarrei na dificuldade de fazer posts em que tivesse que explicar situações que envolviam a transexualidade, mas sem tocar no assunto. Então meus posts ficavam faltando uma explicação. Agora poderei ser mais transparente como costumo ser na minha vida cotidiana. Então acho que daqui para frente meu jeito de dizer as coisas pode passar mais por essa questão.
Quem não se sentir à vontade, pode deixar de me ler e não precisa nem dizer tchau, porque vou perceber. Pasmem, muita gente se sente traída com essa revelação. Como se eu fosse uma criminosa que devesse sempre dizer o crime que cometi. Muita gente acha isso, que devo andar com um letreiro em neon piscando na testa. E não acho que seja por aí. Acho que nem preciso esconder, nem preciso anunciar aos quatro cantos do mundo. Na verdade não tenho nenhuma vergonha da minha história, muito pelo contrário.
Para quem se interessar em saber um pouco mais sobre a questão, sobre como foi e é minha vida, pode escrever para meu email, que se encontra aí no sidebar, ao lado dos posts. Só peço que use o bom senso na hora de fazer os questionamentos.
É isso...
P.S.: Não pretendo abandonar meu nick Dama de Cinzas. Por tudo que todos já leram sobre mim e mais essa revelação, tanto faz assinar meus posts como Márcia Cristina, Márcia, Marcinha, Cris, Cristina ou Dama de Cinzas. Podem me chamar como desejarem, mas esse pseudônimo não deixo, porque ele diz muito sobre mim.