
Sofri abuso sexual do meu irmão quando tinha por volta dos 8, 9 anos de idade. Ele era mais velho que eu alguns anos, já na adolescência, com seus hormônios explodindo. Não sei bem classificar se o abuso sexual feito por um adolescente é menos doloso do que o de um adulto. Mas creio que um rapaz na adolescência já tenha algumas consciência de seus atos sexuais, muito mais do que uma criança.
Tive uma infância muito pobre, então meus pais colocaram desde sempre eu e meu irmão para dormirmos no mesmo quarto. Sempre foi assim, primeiro em camas diferente, depois de um tempo foi comprada uma cama velha grande e passamos a dormir nela. Era a nossa realidade não se pensava em pedofilia, abuso sexual, como se pensa hoje em dia. Enfim... era assim que funcionava na nossa casa.
Um dia acordei com meu irmão abaixando meu short do pijama e tentando me penetrar. Sinceramente naquela época não sabia o que era nada daquilo. Ouvia falar em sexo, mas não como as crianças de hoje, que tem acesso pela TV, internet e tudo mais. A sociedade era bem mais fechada, pudica, as informações não eram tão acessíveis. E não sabia sinceramente a extensão de nada do que era aquilo e nem suas consequências, meu corpo era totalmente infantil, minha mente idem.
Meu irmão disse que era para eu deixar que seria bom. Eu permiti mesmo que aquilo me trouxesse dor física. Não sei exatamente dizer porque cedi, não posso comparar a mente que tenho hoje com meu raciocínio daquela época, mas me lembro que envolvia muito medo, medo de decepcionar, já que sempre meu irmão era modelo de tudo de bom e eu nunca prestava. Então sentia ou achava que aquilo era o que deveria ser feito.
E não foi uma vez apenas, aquilo durou um tempo. E sempre cedia e nunca sentia nada, exceto dor em muitos momentos. Lembro de que quis sair daquela situação, mas meu irmão me convenceu de não. Tinha medo de toda minha família e achava que como ele era o modelo, deveria acatar. Sempre dizia para ficar calada e não contar nada para ninguém.
Bem, não vou me estender nos detalhes, senão o post vai ficar enorme. Mas o fato é que isso não foi um grande trauma para mim. Influenciou ajudando a destruir minha autoestima, junto com outras circunstâncias familiares.
Dizendo que não fiquei traumatizada, não quero mininizar as consequências brutais de um abuso sexual em qualquer fase da vida de uma mulher, de uma pessoa. Talvez pela falta de violência física, por eu ter consentido, mesmo sabendo hoje que não tinha consciência plena do que estava rolando, não tenha ficado tão marcada psicologicamente como se, talvez, alguém tivesse me violentado.
No entanto, mais tarde, querendo destruir a imagem de bom moço do meu irmão, porque sempre tudo de bom era ele, e eu não prestava, cheguei a contar para meus pais, mas eles nunca acreditaram e ainda ficaram contra mim. Isso, sim, me machucou fundo! Não me sentia uma vítima, mas sei que fui a vítima, então meus pais tinham que ter ficado do meu lado, e não ficaram. Isso que deixou a mágoa de toda essa situação.
Pensei, antes de abrir essa parte da minha vida aqui no blog, mas acho que como escrevo sob o nick de Dama de Cinzas, isso será possível, sem que traga problemas para minha vida atual. E muitos podem se perguntar o porquê de estar contando isso. É simples. Reparem! O que fez com que consentisse nesse abuso, foi uma autoestima detonada por uma família que me desvalorizava o tempo todo. Então sempre achava as atitudes e pensamentos do meu irmão o modelo a seguir e os meus sem importância.
Peço que quando tiverem um filho, mesmo que ache ele um traste, tente contornar de outras formas, certamente dizer para ele que o acha um merda, não vai ajudá-lo em nada, só vai marcá-lo negativamente por toda a vida. Passei anos da minha vida adulta tentando consertar essa baixa autoestima e confesso que até hoje ela não é um modelo a ser seguido. O que acontece na sua infância e adolescência é o que te constrói, são suas bases. Então atentem para isso vocês que tem filhos.