Eu poderia escrever sobre a reforma ortográfica, sobre os conflitos na Faixa de Gaza, sobre a posse do Obama, ou tantos outros assuntos e acontecimentos. Adiei até um outro post que estava pronto pra ser publicado hoje, porque na verdade quero escrever sobre mim...
Alguém anda acompanhando a minissérie da Maysa? Eu estou, não perdi um capítulo sequer, e digo que estou encantada! F*da-se que ela está sendo passada na Globo, inferno dos intelectuais, ou que foi escrita por Manoel Carlos que tantos odeiam. Acho que isso é se ligar a rótulos e o que importa é a essência e a essência de Maysa tenho captado bem, é igual a minha! Se alguém aí que está lendo esse post algum dia sentiu vontade de saber quem é Dama de Cinzas, eu sou a Maysa em essência. Aquela alma angustiada, que ama e odeia a vida na mesma intensidade, que gosta de chocar, que faz doideiras vida afora, que está feliz em um momento e infeliz no próximo, que é capaz de viver intensamente e no momento seguinte desejar morrer, um poço de contradições que faz todo sentido, ou não...
Algumas pessoas ao meu redor dizem que não estão gostando da série porque Maysa foi louca ao abandonar o filho e o marido rico que ela gostava, para seguir a carreira de cantora. Dizem que ela foi louca por beber tanto e fazer tantos escândalos. Eu sempre respondo naturalmente que entendo completamente os caminhos que ela tomou, pois teria feito igualzinho, não porque eu ache lindo tudo isso, mas porque sinto que teria sido assim. Fiz escolhas radicais na minha vida para que pudesse me sentir mais verdadeira comigo mesmo e paguei um preço alto, que venho pagando até hoje, mas não me arrependo, e quando estou cansada bebo e faço umas loucuras para não perder o hábito... rs...
Talvez a única coisa que vejo na série e que não tenho parecido com a Maysa são as chantagens emocionais que ela faz com quem a rodeia, a arrogância em muitos momentos. Não creio que eu seja assim...
Assim como eu, Maysa tentou "se encaixar", casando com um homem tradicional, tendo filho e tentando ser uma mulher como outra qualquer de sua época, mas simplesmente não aguentou, sua personalidade teve que aflorar e surgir uma Maysa autêntica. Lembro-me de quantas e quantas vezes tentei "me encaixar", ser uma dessas pessoas que parecem "normais", que levam vidas que aos olhos alheios parecem comum. Recentemente me vi dentro de uma tentativa dessas e simplesmente enlouqueci, nem parecer "normal" consigo... rs... Agora prefiro andar na contramão, sozinha...
Bem... Para fechar com chave de ouro, hoje li esse poema do deliciosamente louco Angelo Alfonsin e tenho que colocar pra finalizar o post, já que tem tudo a ver com o que expus. Já disse pro Angelo que não sei se gosto mais dos poemas dele, ou de seus comentários no meu blog. Esse é um cara que gostaria de conhecer pessoalmente!
E também um vídeo de uma cantora que está fora da mídia, que fez muito sucesso nos anos 80, que foi muito comparada com a cantora Maysa por seus escândalos, bebedeira, olhos verdes, personalidade irreverente e talento: Angela Ro Ro. Ainda peguei uns dois shows dela quando ela ainda entornava meia garrafa de uisque no palco... Quem me lembrou dessa cantora foi o Lpzinho.
ESPELHO
(Angelo Alfonsin)
Eu sou
Uma tentativa inócua de adaptação:
À obediência
Dos códigos para sobrevivência em rebanhos
À subjugação
Ao tédio de fingir que tudo está bem
Por isso ser considerado um homem de bem
Inofensivo
Como um anjo castrado
À crença
De que a autoridade é um ser com poderes
Especiais além dos que se conhece da extorsão pelo medo
Devendo ser aceita quase como fenômeno natural
Provocado por necessidades superiores que fogem
Do nosso alcance de inferiores mortais
Eu sou
Uma partícula invisível a olho nu ou vestido de gala
Sem importância nenhuma em relação à rotação da Terra
Em torno de seu eixo
Ao contrário do que pensam os que se levam a sério
Perdoados por não saberem o que dizem
Eu sou o que consegui não ser
Se só deu nisso foi tudo o quanto do nada
Que sobrou de mim
Eu nem me imaginaria um dia
Vivendo em meio às sobras das dobras
Do tempo
Peão de obras inacabadas
Não quero ser feliz
Detesto jargão
Lugar comum
Frase feita é pano que não serve para limpar
Chão
Prefiro coragem diante da infelicidade
Talvez a felicidade possível
Eu sou do jeito de jeito nenhum
Talento indiscutível para enjeitado
Sou o traço com régua que resvala para curva
Não nasci fui inventado por mim mesmo
A esmo no ermo de uma solidão de constranger
Vigia de cemitério
Assim prossegui como uma pedra rolante
Um pouco de mim
Foi ficando ali e acolá mas o melhor
Continua entre as quatro paredes
Do coração em cujo filtro só passa o que for
De coração
Que sustenta tão desestruturada estrutura
Entre um verso e outro desmorono
Mora na filosofia
Um gole racha peito cicatriza as dores desse parto
Entre um dia e outro me descubro
Ainda a caminho da claridade dentro dessa noite
Que nasceu comigo
Por fora pareço com o que já foi jogado fora
Arcaico de pintura descascada
Tombado pelo patrimônio público sem patrimônio
Centro histórico
Havana vieja
Por dentro um menino espiando a vida
Pelo buraco da fechadura como se tudo
Fosse novo surpreendente inimaginável
Como um corpo de mulher